sábado, 29 de março de 2014

Luiza

























 A noite foi longa pra Luiza. Às 5:30 da manhã o alarme toca. Já está programado para os dez minutos de  soneca. São valiosos pra Luiza e, além do mais, o seu organismo já responde a isso.

Toma um banho gelado pra despertar. Precisa lavar a cara de ontem. Enquanto coloca a roupa, ela sente o quanto está exausta. Os ombros doem. É como se carregassem toneladas.Tem vontade de se jogar na cama e permanecer debaixo das cobertas.

Na cozinha o cheiro de café está forte. O bule ainda permanece no fogão. Se deu conta de quantas xícaras bebeu, pois quase não existia resquício do pó. Tudo bem, pensou. Já não aguentava mais café. Fez uma vitamina e depois bateu a porta.

Luiza chegou no ateliê por volta das 8h. A fome apertara e então parou numa padaria que ficava no caminho. Fora a primeira a chegar no ateliê. Achou bom. Os minutos a sós eram quistos por Luiza. Ela gostava disso.

Pegou uma tela. As pinceladas eram bem confusas. Os traços não faziam movimentos perfeitos. As cores não conversavam. Era assim que ela se encontrava.

Se deu conta de que o quadro era o seu retrato.

Luiza se encontrava num emaranhado. Uma mistura de sensações que a deixavam vulnerável. Luiza tinha medo, pois sabia onde isso poderia levá-la. Continuou pintando e uma angústia grande foi crescendo dentro dela, como uma bola sendo inflada. Não aguentou. A dor tomou forma. Luiza chorava desordenadamente. Tinha muita dor.

Quem eu sou? Se perguntava.

As lágrimas borravam o quadro. Luiza sentiu alguém a envolvendo. Aninhou-se nesses braços e ali permaneceu. Sedenta de carinho e proteção.





terça-feira, 18 de março de 2014

Luiza



















Eu tinha tudo pra dar errado. E dei, pensou Luiza sentada na cadeira, enquanto olhava o tempo passar sem a bondade de um pit stop.

Estava na varanda, xícara na mão. Fizera um café pra se manter aquecida naquela noite chuvosa.Tinha tido um dia difícil.

Saíra pela manhã pra cumprir seus deveres de estudante e à tarde fora resolver algumas coisas. Andou até chegar a um de seus destinos. Precisava comprar um novo pen-drive, pois tinha emprestado o antigo pra uma amiga e nunca mais viu o objeto. Luiza se irritava com essas coisas, mas resolveu deixar pra lá.

A loja estava lotada, mas por algum motivo ganhou a graça do atendente e logo estava com o pen-drive em mãos. Ainda tinha que passar em mais um lugar, e da loja partiu com pressa.

Luiza gostava de arte e se apaixonou pelas pinturas. Pintava com frequência e suas pinturas retratavam seus sentimentos. Tinham personalidade. Seu amigo, Heitor, era dono de uma galeria e sabia dessa veia artística de Luiza - isso ela não sabia muito de onde vinha. Já ouvira falar em alguma ocasião de família que seus pais tinham dons artísticos, mas não sabia muita coisa. Luiza perdera os pais muito nova e fora criada por parentes distantes. Os únicos que a aceitaram.

Heitor pediu que ela fosse em sua galeria com o portfólio. Estava interessado em expor os quadros, e ela ficou muito animada. A galeria então seria o segundo destino de Luiza.

No caminho, ela pensava em como se sentiria feliz na sua primeira exposição e em como isso impulsionaria sua carreira. Estava excitada. Ao chegar, foi recebida por Heitor e por seu sócio. Luiza estava exausta da caminhada. O sol a deixara enfadada.

Suas pinturas têm muita vida, disse Heitor. E conseguem ser profundas, completou.

Luiza, agradecida, sorriu. Mas, percebeu que a feição do sócio de Heitor não mostrava nenhuma alteração enquanto folheavam o material.

São bonitas, porém imaturasNão precisamos disso, falou João rispidamente. Era o sócio.

Luiza murchou. A voz faltou naquele momento. Olhou pra Heitor e percebeu tristeza nele também. Mas a sua era maior. Transbordava. Heitor não pôde fazer nada, pois João era o sócio majoritário.

Luiza caminhava em direção ao ponto de ônibus desolada. Sentia que não fazia parte do mundo. Ela não tinha sentido.

Chegou em casa e tomou um banho. Seus pés doíam muito. Ela não conseguia pensar em nada mais. A tristeza se apoderara do seu ser.

Colocou a água no fogão e foi pro quarto vestir algo confortável. Queria ficar quieta, e sozinha.