"A minha história começa agora."
Ao afirmar isso, muita gente pode se perguntar como isso é possível se já habito esse planeta há
alguns anos. Então seria natural pensar que a minha história começou quando eu nasci. No entanto, pode-se dizer que fugi à regra."
Luiza escrevia o texto enquanto pensava em seu próximo trabalho. O texto seria retratado em uma de sua pinturas e era necessário, pra Luiza, que a pintura falasse por si só. Queria um quadro vivo.
Largou o lápis. O texto estava pronto. Ela agora tinha que descobrir como colocá-lo numa tela.
Pôs a tela em sua frente e alguns poucos rabiscos surgiram, mas nada do que ela queria. Pensava! O olhar fixo na tela ainda sem vida.
Levantou e foi até a cozinha pra preparar um café. Colocou a chaleira no fogo e enquanto esperava a água ferver, encostada na bancada da cozinha, um filme de sua vida rodava em sua mente.
Lembrou-se da infância marcada pela dor da ausência de seus pais. Dor essa que o tempo aplacou, mas não se apagou.
Momentos seguidos de turbilhões emocionais, onde procurava conhecer a si mesma enquanto amadurecia. E, nesses momentos, a dor dessa ausência ficava mais aguda.
Ao lembrar disso, Luiza deixou escorrer em seu rosto uma lágrima. Algo, então, lhe sorriu à mente. João!
Lembrou daqueles olhos carregados de compreensão que a fazia pensar que ele conhecia cada pedaço de sua alma e de quanto o amor que ele a entregava a mantinha segura e aquecida.
Ele era o seu ninho.
João foi uma das melhores surpresas que a vida trouxe ao seu encontro. Contudo, a melhor surpresa foi a de se descobrir sem nenhuma amarra e ter a certeza de que podia voar.
O apito da chaleira a despertou da consciente viagem. Voltou pra tela com uma xícara de café na mão, e agora, sabia exatamente como terminar o que começou.